Publicado no Diário Económico em 9.Set.2010
Será possível construir uma casa de qualidade aceitável, resistente a cheias e a ciclones, por apenas 300 dólares? Parece difícil, mas é uma aposta que vale a pena.
Com efeito, quem o conseguir terá desenvolvido um produto que satisfará as necessidades das 2,5 biliões de pessoas mais pobres do Mundo e no decorrer do processo, passará a dispor de tecnologias e competências que serão aplicáveis, também, nos países mais ricos.
Por exemplo, possibilitando a construção de abrigos de emergência melhores, infelizmente sempre necessários na sequência dos cataclismos que tendem a perseguir a Humanidade. Permitirá, também, muito simplesmente, a construção de casas para turismo ecológico eficientes, baratas e de baixa pegada ambiental.
É esta a aposta da “Affordable Housing Institute”. O projecto é um bom exemplo do que é a “Reverse Innovation”. Trata-se de uma inovação desenvolvida especificamente para os países em desenvolvimento, focada na minimização do custo e que posteriormente é comercializada nos países mais ricos, abrindo novos segmentos de mercado.
O tema vem tratado no artigo “How GE Is Disrupting Itself” publicado na HBR. Nele explica-se como esta metodologia contribuiu para o extraordinário crescimento da GE nos mercados da China e da Indía, na última dezena de anos. Como exemplos, apresenta-se um equipamento para electrocardiogramas portátil que custa apenas 1.000 dólares ou um equipamento de ultrasons, baseado num PC, que se vende por 15.000 dólares. Mas, mais do que o preço, o que estes desenvolvimentos tiveram de extraordinário foi que, tendo sido desenvolvidos para a Índia e para a China, passaram posteriormente a ser vendidos, com êxito nos Estados Unidos.
Existem também aplicações da metodologia, noutras indústrias. A Renault, por exemplo, desenvolveu o Dacia Logan, para o mercado Romeno, procurando um carro de baixo custo, simples e robusto e agora comercializa-o, nalguns países europeus a um preço abaixo dos 9.500 Euros.
Aumentar as exportações tem que ser uma das preocupações da nossa indústria. Para o conseguir vale a pena repensar a forma como desenvolvemos os produtos, resistindo à corrida ao aumento da funcionalidade, procurando, pelo contrário, desenvolver produtos que cumpram o essencial ao mínimo de custo. Como o tem mostrado a “Reverse Innovation”, estes produtos serão comercializáveis com êxito não apenas nos países em desenvolvimento, mas também nos mercados mais ricos.
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Referências