Fui pela primeira vez a uma loja Ikea em Berlim, há 2 anos. Para comprar uma cama Malm e um armário de cozinha Udden, para a casa da minha filha Joana. Confesso que a experiência não foi totalmente conseguida. Passo a contar.
Sobrevivi, com relativa facilidade, ao processo de compra, ajudado pela Joana e pelo Pedro, que já dominavam as especificidades do processo de aquisição no universo Ikea: percorrer os trajectos labirínticos da loja; utilizar os tacos de lápis disponibilizados, para tomar notas das referências dos produtos que decidimos adquirir; pagar e ir encontrar, com alguma dificuldade, ao armazém, a cama e o armário – tudo nos “flat-packs” que foram uma das inovações da Ikea, origem de uma enorme vantagem logística sobre os seus competidores.
O problema surgiu na montagem. O Pedro e um amigo tomaram a seu cargo a cama Malm enquanto eu e a Joana tivemos de enfrentar as especificidades da montagem do armário Udden. Tudo a contra-relógio, porque às 4 tinha de estar no Aeroporto.
O acidente ocorreu quando pretendi optimizar a sequência de operações indicadas nas instruções de montagem e, ao virar o armário, me encontrei, com surpresa e desgosto, com a porta nas mãos, arrancada rente pelas dobradiças. Nada que uma boa dose de Araldite não viesse posteriormente a resolver e, afinal, o armário tinha custado apenas 40€ …
Tinha falhado redondamente um dos valores da Ikea. Com efeito, é considerado que o processo de auto-montagem, a par da vantagem de custo, e de facilitar o transporte com os “flat-packs”, reforça a lealdade à marca, ao permitir que os móveis integrem um contributo nosso, constituindo em simultâneo uma forma acessível de demonstrarmos, perante amigos e familiares, a nossa habilidade manual. Não foi o meu caso!
Mas a Ikea é hoje o maior exportador da Suécia, à frente da Volvo e um caso exemplar de sucesso pela Inovação. A empresa tem sabido evoluir desde que os seus conceitos de base começaram a ser criados por Ingvar Kamprad (o I e o K de Ikea), quando tinha apenas 17 anos. A Ikea não fabrica os móveis que vende; o fabrico está contratado em “outsourcing”, grande parte na Polónia. O que a Ikea essencialmente vende é inovação: inovação em “design”, democratizando o estilo Nórdico; inovação em logística, utilizando as embalagens “flat-pack” que a auto-contrução possibilita; inovação no conceito de loja, que pretende proporcionar aos clientes uma experiência única que convide a voltar; inovação no processo de “procurement” com o qual tem conseguido, sempre, preços extremamente competitivos.
A Ikea é a prova que um campeão mundial pode nascer num local improvável. A Empresa nasceu e ainda opera a partir de Älmhult, uma pequena cidade no sul da Suécia, e, como defende José Santos no livro “De Global a Metanacional”, pode haver vantagens em nascer no local errado, porque as empresas são empurradas, cedo, para o jogo global. O que abre espaço para, em Portugal, criarmos também um campeão mundial que ajude a fazer e diferença.