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Comprei um Kindle

KindlePublicado no Diário Económico em 6 de Julho de 2011

Finalmente rendi-me e comprei um Kindle. Foi assim: estávamos ancorados na Cala Lanzarina, nas ilhas Lavezzi, mesmo no meio do canal de entrada. As ilhas não são mais do que um conjunto de rochedos, lavados pelo Mistral, que frequentemente assola o estreito de Bonifácio, entre a Córsega e a Sardenha. Os ilhéus, porque disso não passam, bloqueiam quase metade do estreito, e com mau tempo são perigosos e inacessíveis.

Mas tínhamos apanhado um dia com pouco vento e mar chão, ao ponto de termos decidido passar a noite fundeados e agora, estendido na rede do catamaran, gozava o sol, acompanhado por um bom livro.

Sunset at Lavezzi Islands, Corse

Nada é perfeito, e estava a fazer render o último dos livros que tinha levado, as “Memórias de um Sargento de Milícias”, que de resto é bem pequeno.

Foi aí que comecei a invejar o meu filho que, com um Kindle, tinha ao seu dispor 19 livros (o aparelho tem capacidade para 3.500) e a possibilidade de, em qualquer momento, aceder a uma biblioteca virtual imensa, fazendo o “download” do livro escolhido, a partir das ligações sem fios, WiFi e 3G.

O Kindle é o leitor de livros electrónicos da Amazon, e várias coisas me atraíram, de imediato, nesta terceira geração. A primeira foi a duração da bateria, que é de quase dois meses, se mantivermos o módulo de comunicações desligado; a segunda foi o ecrã, sem reflexos, que quase parece impressão em papel, mas com a vantagem de permitir mudar o tamanho das letras.

Lavezzi Lighthouse

Mas, o que mais me atraiu foi a possibilidade de virtualizar a minha biblioteca. Há muitos anos tomei, entre outras, a decisão de ler um livro por semana. Algumas semanas leio, muitas não, mas ao longo de anos fui acumulando livros e já sinto que me inibo de comprar mais, por não ter onde os guardar.

Com o Kindle, a Amazon passará a fazer o “back-up” automático, na “cloud”, de todos os livros que eu comprar, incluindo os marcadores de página e as notas que for tomando.

Mas, o que considero mais extraordinário é o aparelho disponibilizar uma ligação 3G, com todo o tráfego incluído. Em qualquer local do mundo, vou poder aceder à Amazon e descarregar os livros que quiser. Um modelo de negócios precursor, que dá a antevisão do que vamos presenciar na área do “machine-to-machine”.

Não está longe o tempo em que as máquinas de lavar, por exemplo, serão adquiridas com comunicações incluídas e passarão a decidir a melhor hora de iniciar a lavagem, em diálogo com o seu comercializador de energia.