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A Energia e o Mar

Publicado na revista Aspectos, nº 147 - Julho 2010, pgs 54-55

Já não é só o aquecimento global. A recente explosão na plataforma petrolífera Deepwater Horizon da BP, no Golfo do México, enfatiza à exaustão os riscos crescentes que se correm à medida que se torna necessário ir extrair petróleo em águas cada vez mais profundas. A dimensão deste desastre intimida: tem estado a ser derramada nas águas do Golfo, cada semana, uma quantidade de petróleo equivalente ao acidente do Exxon Valdez.

Mesmo para os mais cépticos, estão a tornar-se evidentes as vantagens de se conseguir desenvolver formas de energia renováveis, por forma a criar progressivamente independência face aos combustíveis fósseis. O desafio tem necessariamente que ter solução: nas suas diversas formas, a energia renovável disponível, ultrapassa largamente as nossas necessidades.

Está, também, ao nosso alcance desenvolver a tecnologia necessário para a capturar, como o provou o desenvolvimento da fileira eólica, que em duas décadas passou de uma tecnologia incipiente à maturidade.

Os Oceanos ocupam 71% da superfície da Terra, o que torna, a prazo, o Mar um espaço incontornável para se ir capturar energia renovável.

Nas suas diversas formas, a energia marítima disponível é, só por si, várias vezes superior às necessidades globais. Neste momento, as formas de energia marítima consideradas com maior potencial são a energia das ondas e a energia do vento. Mas a energia das marés tem já relevância graças à central de Rance, em França, que gera desde 1966 cerca de 600 GWh por ano. Existem também outras tecnologias, como a energia osmótica ou a energia térmica oceânica, que embora aparentemente mais exóticas têm igualmente um potencial relevante.

Portugal tem apostado na energia das ondas e na energia do vento. Fomos precursores na utilização da energia das ondas, sendo hoje reconhecidos como uma referência nesta matéria. A central do Pico, nos Açores, construída em 1999, utiliza a tecnologia de Coluna de Águas Oscilante (CAO) e embora tenha sofrido diversas vicissitudes, é ainda uma das centrais de energias de ondas que, até hoje, melhor desempenho tiveram. Também o ensaio na Aguçadora do dispositivo AWS em 2004 e do Pelamis em 2008 trouxeram ensinamentos importantes de como gerir sistemas no Mar.

Como resultado destes últimos esforços resultou, ainda, termos ficado com um local apetrechado para a realização de testes de protótipos no mar, com ligação à rede eléctrica, na Aguçadoura, concelho de Matosinhos, o que representa um activo, neste momento, único. Este local é propriedade de um consórcio liderado pela EDP Inovação e secundado pela Efacec.

De realçar, ainda, que a Martifer desenvolveu uma tecnologia própria, encontrando-se em fase de procura de parceiros para a construção e teste de um protótipo no mar, que a Kymaner tem em curso o projecto de uma CAO flutuante, e que o Grupo Lena participa no desenvolvimento e teste da tecnologia Waveroller em Peniche.

No que refere a energia eólica, Portugal tem já as suas credenciais. O País gera uma parte substancial da sua energia a partir do vento, tem indústria própria, e a EDP Renováveis tornou-se, em poucos anos, o terceiro maior produtor mundial de energia eólica, com presença em doze países.

No eólico, a próxima fronteira é a energia “offshore”, a qual coloca desafios específicos, em virtude da agressividade do meio. O “offshore” tem à partida vantagens: no Mar existe mais vento e mais regular, e quando a distância à linha de costa é suficiente não há impacto visual. Mas o “offshore” trás dificuldades acrescidas tanto de construção, como de operação. A construção torna-se mais difícil à medida que a profundidade aumenta. Até 30 m, podem utilizar-se estruturas semelhantes às torres eólicas tradicionais, entre os 30 e os 50 metros têm-se utilizado “jackets”, estruturas mais complicadas, utilizadas, por exemplo, no sistema Beatrice, na Escócia e para lá dos 50 metros torna-se mais vantajoso utilizar estruturas flutuantes.

Na costa Portuguesa existem poucas áreas, a distância suficiente da costa, com profundidade inferior aos 50 metros, o que torna quase obrigatório a utilização de sistemas flutuantes. Assim, a EDP Inovação, com um conjunto de parceiros, iniciaram o projecto WindFloat. Este sistema junta a tecnologia de uma plataforma petrolífera semi-submersa a uma torre eólica tradicional, estando o demonstrador a ser projectado para uma potência de 2MW. O projecto, que tem apoio do Fundo de Apoio à Inovação (FAI), tem um valor estratégico elevado para os seus promotores e para o País, possibilitando uma vantagem competitiva sustentada para a indústria “offshore” nacional e contribuindo para o renascer de um “cluster” de construção e serviços navais, com capacidade para servir os mercados externos.

A Energia do Mar, está lá, em valores substanciais, à espera de ser capturada. Para o conseguir a EDP, assim como outras entidades nacionais, têm efectuado um investimento relevante nas duas frentes mais promissoras: a energia das ondas e a energia do vento em águas profundas. Há, contudo, ainda um longo caminho a percorrer até se conseguirem produtos maduros em fase comercial.

Trata-se de uma aposta que vale a pena, mas o esforço não deve ser feito por entidades isoladas, tornando-se necessário trabalhar em conjunto, partilhando investimento e riscos.

Existem os instrumentos para o conseguir: o Energyn - Pólo da Competitividade e Tecnologia da Energia - tem a energia “offshore” como uma das suas fileiras e agrega já a EDP, a Efacec, a Galp, a Martifer e o MIT Portugal.

É também de referir, a existência uma tarifa bonificada para a energia das ondas que evolui com a experiência acumulada e o facto de estar planeada a criação de uma zona piloto para a energia das ondas.

Parecem assim estar reunidos os ingredientes principais para se poder materializar, no País, a componente energética do Hypercluster do Mar!