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A IBM e a China

Artigo publicado no Diário Económico em 17 de Janeiro de 2012

É difícil não admirar a IBM. Vimo-la fabricar, desde relógios de ponto a máquinas de escrever, ao mesmo tempo que inventava o PC e desenvolvia os sistemas mais complexos e os maiores servidores do Mundo. Ao longo de dezenas de anos sempre conseguiu manter-se rentável, largando agressivamente áreas de baixa margem em favor das de maior valor acrescentado.
No último dia de 2011, o NY Times publicou uma entrevista com Samuel Parmisano, CEO da IBM desde Março de 2002, responsável pelo último “turnaround” da empresa. Foi, mais uma vez, uma reorientação de fundo e não óbvia: pura e simplesmente vender a divisão de PCs, uma tecnologia que a empresa tinha inventado em 1981 e cujo volume de vendas lhe garantia, entre as TIs, o primeiro lugar em faturação.
Em causa estava recentrar a inovação da empresa nos serviços e no “software”, que passaria a ser entregue pela Net a partir de centros de processamento, interligando todo o tipo de dispositivos, incluindo os PCs. A IBM chamava-lhe “on-demand computing”, hoje chamamos-lhe “cloud computing”.
O negócio de computadores pessoais tinha-se tornado uma “high-tec commodity”. Na cadeia de valor dos PCs só podia ganhar dinheiro o fabricante do “chip” e o fabricante do sistema operativo. Mas a IBM tinha oferecido o primeiro à Intel e o segundo à Microsoft.
De acordo com a nova estratégia, a IBM vendeu em 2004, por 1,75 biliões de dólares, a sua divisão de computadores pessoais à empresa chinesa Lenovo. Parmisano confirma, na entrevista, o que já se adivinhava: a empresa tinha diversos candidatos à compra, entre eles a Dell, mas acabou por se decidir por uma empresa chinesa, não pelo preço mas por razões estratégicas. O governo chinês persegue o objetivo de criar empresas globais e, ao facilitar esse objetivo, a IBM assegurou uma porta de entrada num mercado muito lucrativo.
A China evoluiu muito desde que Deng Xiaoping abriu a economia do país em 1978: em 2010, entre as empresas listadas na “Fortune Global 500”, 42 eram chinesas. Só os Estados Unidos (com 139 empresas) e o Japão (com 71) se podiam gabar de um número superior.
Com esta aquisição, a Lenovo tornou-se de imediato uma empresa global com vendas anuais superiores a 12 biliões de dólares. O negócio tem-lhe corrido bem: a empresa atingiu, em 2011 a faturação de 21 biliões de dólares anuais e subiu ao segundo lugar no segmento dos computadores pessoais.
O negócio também tem corrido bem para a IBM, que tem hoje uma capitalização bolsista de 217 biliões de dólares, um valor quatro vezes superior ao da H.P., que após a venda à Lenovo tinha ficado, entre as TIs, com a “pole-position” em volume de vendas. Um bom augúrio para Portugal?